terça-feira ,27 junho 2017
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Memórias – Belém 400 anos

BELÉM POR SEUS PERSONAGENS


Belém completou 400 anos em 2016. Uma data marcante e significativa para a cidade. Em celebração ao quarto centenário, esta seção da Câmara Municipal de Belém, “Memorial”, pretende relembrar alguns dos personagens, entre os mais recentes, que cumpriram importante papel na história da cidade, nas mais diversas áreas – intelectual, cultural, política, artística, acadêmica. Mas relembrá-los – em vez de um ponto de vista mais oficial – ao sabor da crônica, dos acontecimentos, de episódios que lhes marcaram a biografia, em alguns casos, incorporados à própria existência da cidade. Estes perfis poderão também servir, eventualmente, como fonte de pesquisa e conhecimento para estudantes e interessados em geral.

Aqui também serão reproduzidos artigos, depoimentos, textos ligados à capital paraense, capítulos que contribuíram para moldar esta Belém que tanto amamos e que, esperamos, chegue aos 400 anos com disposição e ânimo redobrado para viver os séculos que virão.

Ao relembrar seu passado e as personalidades que fazem parte dessa história, e de seu presente, inclusive, o que se espera é projetar na tela do futuro a certeza de que podemos construir – com a herança recebida de quem soube nela viver e amá-la – uma Belém melhor.

REDATOR: ELIAS RIBEIRO PINTO
*Jornalista e crítico literário

BELÉM 400 – MEMORIAL

  • LUZES DE BELÉM

Belém reúne uma coleção significativa de descrições de sua geografia urbana, depoimentos que a retratam ao longo da história. Na antologia “Pará, Capital: Belém”, o escritor Haroldo Maranhão recolheu um bom número desses testemunhos. Diferentes fontes escritas nos trazem informações geográficas, antropológicas, etnográficas e históricas da capital paraense.

É claro, muita coisa ficou de fora. Por exemplo, o curto parágrafo sobre Belém contido no curioso “Através do Brasil”, espécie de bê-á-bá sobre o país, escrito pelo poeta Olavo Bilac e pelo historiador Manoel Bonfim. Destinado a estudantes, o livro, publicado em 1910, conta a história de dois meninos que, em busca da família, atravessam o Brasil.

A menção a Belém é breve, lapidar. “Em Belém, houve um grande movimento. Muitos viajantes desceram, muitos outros embarcaram. A cidade encantou Juvêncio pelo seu aspecto e pela sua agitação. Belos edifícios, ruas largas, bem calçadas e arborizadas, muita gente nas praças públicas e na grande avenida da República.”

Bem mais extenso e rico é o registro que J. A. Leite Moraes deixou. Paulista, ele foi nomeado presidente (o correspondente, hoje, a governador) de Goiás em 1881, para onde seguiu, no começo, de trem; depois, a cavalo.

Quando deixou o governo, preferiu voltar por um caminho mais longo, descendo o Araguaia e o Tocantins até Belém, aonde chegou em 1882, 133 anos atrás, num bote a remo. Daqui ao Rio de Janeiro foi de navio e, finalmente, de trem, de carro e a cavalo até São Paulo. Publicou o relato dessas viagens naquele mesmo ano, numa edição privada, que só há pouco foi colocada ao alcance do público, sob o título “Apontamentos de Viagem” (Companhia das Letras).

Como já se disse, Leite Moraes chegou a Belém de bote, de onde avistou a cidade às duas horas da madrugada. “Aos nossos olhos desenrola-se um painel esplêndido e fantástico; ao longe vemos suspenso pelo firmamento um candelabro de centenares de luzes trêmulas, à semelhança de estrelas agrupadas em um ponto do espaço! É a cidade de Belém que nos aparece naquelas luzes”.

Já desembarcado, percorrendo a cidade, registra: “Belém é uma cidade essencialmente comercial; a importância do seu comércio está afirmada pelo número considerável de navios mercantes, ancorados na sua baía, pela renda de sua alfândega, pelo movimento de seu mercado e pelo valor de suas transações diárias”. Em Belém, prossegue, “tudo é grande e tudo indica o desenvolvimento progressivo daquele povo; as suas ruas, os seus edifícios, particulares e públicos; o seu mercado, o seu matadouro, a sua imprensa”.

Passeando pelas ruas, nota-as “magnificamente arborizadas; esta de mangueiras, aquela de palmeiras imperiais e orlada de prédios construídos com arte e gosto, luxo e elegância”. E mais adiante: “Os seus edifícios públicos, palácios, arsenais, igrejas, alfândegas são dos melhores que conhecemos no Brasil”. Se muita coisa mudou de lá para cá, a quentura ainda é a mesma: “O calor é excessivo; não há como dormir senão na rede e com mosquiteiro”.

Quanto ao Teatro da Paz, “é o atestado eloquente da força e riqueza dos paraenses; é o melhor teatro do Norte, sendo apenas inferior ao de Pernambuco na sua decoração interna”.

Segundo o autor, “o mercado rivaliza com o da Corte”. Só critica mesmo o preço exagerado da carne, fruto de “um monopólio odioso e fatal à população”. Há outras observações valiosas, mas breco por aqui o texto, que já vai longe. Mas que vale a pena botar esse retrato de Belém na parede, ah, isso vale.

  • A CIDADE E SEUS PERSONAGENS

AUGUSTO MEIRA FILHO

O Eterno Namorado de Belém

Engenheiro, historiador, escritor, vereador, jornalista e poeta, Augusto Ebremar de Bastos Meira foi, como se pode perceber, um homem de múltiplas atividades. Essencialmente, foi um homem público, um sentimental, de “temperamento ciclotímico, com altos e baixos”, como o descreveu, depois da morte, o irmão Clóvis Meira.

Filho do nordestino (do Rio Grande do Norte) José Augusto Meira Dantas – que chegou a senador da República depois de iniciar-se, bacharel em Direito, como promotor público em Santarém, no governo Augusto Montenegro –, Augusto Meira Filho (adotou o “Filho” para homenagear o pai) foi, em primeiro lugar, um homem dedicado a Belém, onde veio à luz em 5 de agosto de 1915, e de onde partiu, definitivamente, a 8 de julho de 1980.

Presidente da Câmara Municipal de Belém no período de 1971 a 1973, exerceu três mandatos como vereador – seu nome, de todo modo, está fortemente vinculado a este Poder: o prédio que abriga a Câmara leva o nome de Palácio Augusto Meira Filho.

No dia 1º de fevereiro de 2011, a sessão solene de abertura dos trabalhos na Câmara foi antecedida pela inauguração de um Memorial em homenagem a Augusto Meira Filho. Ao descerrar a placa comemorativa, instalada no salão de entrada do prédio, o presidente da Casa, Raimundo Castro, destacou que era uma honra para este Poder, através do Memorial, eternizar a contribuição de Meira Filho, face aos importantes serviços prestados ao município. A distinção somou-se a uma homenagem anterior, o Brasão D’Armas, que o legislativo municipal atribuiu, post-mortem, ao eminente historiador, que legou uma expressiva bibliografia dedicada à cidade de Belém.

A placa estampa dois momentos significativos da vida do homenageado. A caricatura de João Pinto remete à primeira função pública assumida por Meira Filho, como diretor do Serviço de Águas, tendo diante de si o desafio de regularizar o abastecimento à população. Logo abaixo da ilustração, sob o título “Belém Infância, Belém Saudade”, reproduz-se um longo poema de Meira Filho, em que expressa seu amor à cidade, da qual se dizia, e disso fazia questão de ressaltar, um eterno enamorado.

De bacamarte, sentinela do verde

Sim, Augusto Meira Filho era “o namorado da cidade”. E igual a quase todo namorado, às vezes era possessivo. Impetuoso. Arrebatado.

Por conta desse amor, há diversos episódios em sua vida que, desbotados pelo tempo, a história vai tratando de colorir com as tintas da lenda, guardando-os no escaninho folclórico dos eventos urbanos.

Cultor das árvores, do verde e, em particular, defensor das mangueiras como tipo ideal para ser empregado na arborização de Belém (discordava dos que consideravam a mangueira, pelo seu tamanho, antiestética como arborização urbana; pelo contrário, achava-a ideal, “pois dá sombra e beleza à cidade”), foi convidado pelo então prefeito Stélio Maroja para planejar o replantio e restauração da Praça da República.

Logo descobriu que cumprir tal missão não seria tarefa das mais fáceis, mas a persistência seria sua aliada. Assim, teve de plantar, repetidas vezes, no mesmo local, uma árvore, pois esbarrou com inimigos também incansáveis em seu ofício predador: tornavam a destruir a muda replantada em substituição à anterior, arrancada.

Mas o nosso paladino do verde bateu-os pelo cansaço. Na sétima tentativa de fazer vingar a plantinha, quando já desanimava, topou, na manhã seguinte, com a seguinte frase, escrita num papel de embrulho, amarrado ao frágil tronco: “Doutor, esta fica pela persistência”. Vitória da perseverança dos justos.

Morto, o múltiplo Meira condensou-se como efígie de historiador de sua terra natal. Nesta área, seu trabalho mais significativo entre mais de vinte obras publicadas, é o livro Evolução Histórica de Belém do Grão-Pará, editado em 1975. Pessoalmente, o “doutor Meira”, como o chamavam, era homem expansivo, alegre, de uma vitalidade radical. E, já vimos, compulsivo.

Na trincheira da batalha pela arborização, chegou a empunhar armas. É ele quem conta: “Certa vez, plantei uma árvore na Praça da República. Sabendo que iriam derrubá-la, saí às três horas da madrugada para o local, com o meu bacamarte, e lá me postei, de sentinela. Desta vez, ninguém se atreveu a derrubá-la”.

Para o doutor Meira, a criatura que “destrói uma árvore é despida de qualquer sentimento, é uma personalidade sem definição”. Quando se referia a “esses vândalos”, o enamorado deixava-se contagiar pelo ânimo radical: “Se eu pegasse uma pessoa dessas, amarrava-a na árvore e escrevia: ‘este depredava a natureza’”.

Sociedade dos Amigos de Belém

Ecologista avant la lettre – antes que o termo ganhasse a dimensão atual–, de que raízes teria surgido a devoção de Meira Filho às plantas? Mais uma vez, é ele quem aponta as origens dessa paixão embrionária: “Quando eu tinha uns cinco ou seis anos, e via machadinhas e terçados derrubando árvores, prometi a mim mesmo defender a natureza, tal a raiva que tive em ver tamanha crueldade”.

O homem cumpriu a promessa do garoto. Presidente da Fundação Cultural do Estado, Augusto Meira Filho criou a Sociedade dos Amigos de Belém, destinada à luta em defesa do patrimônio cultural e do arvoredo. Além de plantar sementes, a entidade promovia palestras nos colégios e distribuía panfletos ecológicos, o que não parecia render bons frutos, pelo menos de imediato.

Afinal, de cada 100 árvores plantadas pela sociedade, 90 não vingavam, para desconsolo dos Amigos. “No passado, o maior inimigo das árvores eram as saúvas. Agora vieram outros tipos de inimigos, e contra esses não adianta inseticida”, queixava-se.

Dentre esses inimigos, Augusto Meira identificava as empresas de construção civil, responsáveis por derrubadas indiscriminadas. Ele mesmo engenheiro, buscava conciliar profissão e vocação preservacionista. “Quando eu construía uma casa e a garagem ficava atrás de uma árvore, tentava, por todos os meios, construir a garagem sem sacrificar a planta”.

Entre os livros que publicou, destacam-se os volumes O Bi-Secular Palácio de Landi; Contribuição à História da Pintura na Província do Grão-Pará no Segundo Reinado; Landi, Esse Desconhecido – o Naturalista; e Pedro Teixeira, o Desbravador da Amazônia.

Como jornalista, manteve, por vários anos, em A Província do Pará, a página “O Jornal Dominical”, em que tratava de assuntos históricos e culturais, divulgando e defendendo o patrimônio histórico do Estado.

Entre os tantos testemunhos prestados por amigos quando da morte de Augusto Meira Filho, uma frase, que bem lhe poderia fazer as vezes de lápide, define-lhe a trajetória: “Foi um grande amigo de Belém”. Melhor ainda: namorado. E dos fiéis.

 GONÇALO DUARTE

O Filósofo do Jurunas

Para os moradores do Jurunas – a multidão nas ruas, pessoas chorando – sua morte, guardadas as devidas proporções, podia ser comparada à comoção popular provocada pelo suicídio de Getúlio Vargas. Seu compadre Alacid Nunes (e deu o nome de Alacid a um de seus nove filhos), os deputados Osvaldo Melo e Álvaro Freitas, entre outros políticos, amigos e familiares, testemunharam seus últimos momentos naquela noite de 18 de dezembro de 1971, data da morte, aos 59 anos de idade, de Gonçalo Duarte, o vereador-filósofo do Jurunas.

“Era um líder popular de alma simples e boa”; “Sua morte rouba ao convívio político do Pará um dos políticos mais puros e mais dedicados à causa pública”; “Era capaz de tirar até o último centavo de seu bolso para cobrir a necessidade de qualquer pessoa que pedisse sua ajuda”; “Centenas de pessoas, muitas chorando, levaram o corpo do ex-político ao cemitério Santa Isabel”, dizia o noticiário jornalístico nos dias seguintes ao falecimento de Gonçalo Duarte.

Uma então jovem colunista social, que hoje assina uma das principais colunas sociais da cidade, escreveu que, mesmo sem ser amiga do líder popular, mas tendo acompanhado a distância sua trajetória, considerava-o “o mais autêntico representante das massas nessas duas últimas décadas”.

Acompanhado “por verdadeira multidão de amigos e admiradores”, o trânsito foi interrompido “por dois batedores da Polícia Rodoviária, com suas sirenes ligadas”, para dar passagem ao cortejo fúnebre. Em frente ao cemitério, o trânsito ficou congestionado. A capela “foi tomada pela massa”, que subia nas sepulturas, “ou mesmo em pequenas árvores”, para dar seu adeus final. “A ala direita do cemitério estava completamente lotada, dificultando o trabalho do vigário e dos repórteres fotográficos.”

Segurando as alças do caixão estavam Augusto Meira Filho, então presidente da Câmara Municipal de Belém, Georgenor Franco, representando o governador Fernando Guilhon, Alacid Nunes, Gelmirez Mello e Silva, representando o ministro Jarbas Passarinho, o deputado Osvaldo Melo e o vereador Oséas Silva.

Um novo santo

À beira do túmulo, em nome do legislativo, o vereador Fernando Bahia concluiu seu discurso lendo um poema do deputado Jorge Arbage: “Lá no céu pede pelos teus colegas, para que eles pelo menos possam te imitar. O Jurunas perdeu o seu melhor amigo, mas o céu ganhou um novo santo”.

Quem foi Gonçalo Duarte, filósofo do povo que virou “santo”? Gonçalo é retrato de uma época superada? Gonçalo foi um homem capaz de unir o endosso do colunismo social ao aval da aprovação popular. Não raro, podia ser visto, logo cedo, investido do cargo de vereador, pelas esquinas do Jurunas, à frente de uma equipe de operários, capinando ruas, limpando valados.

O mais popular dos vereadores

Para o ex-vereador Adelino Simão, que assumiu, como suplente, a vaga de Duarte quando este morreu, “nunca houve alguém que aliasse carisma e simplicidade na mesma proporção”. Para quem queira tirar alguma lição do episódio, saiba que a única homenagem póstuma recebida pelo ex-vereador fica por conta do nome de um colégio existente na avenida Fernando Guilhon, quase esquina da Bernardo Sayão, o Colégio Gonçalo Duarte. Perto, por sinal, de onde ele morava.

Gonçalo Vieira Duarte é considerado, hoje, o vereador mais popular da história política paraense. Ele foi eleito por quatro vezes consecutivas: em 1958/62 e 62/66, quando se reelegeu com 3.344 votos, o vereador mais votado. Integrava a Coligação Democrática Paraense, criada em torno da candidatura de Zacharias de Assumpção. Em 1966, já como candidato pela Aliança Renovadora Nacional (Arena), elegeu-se deputado (praticamente com os votos da nação jurunense). Desistiu de disputar a reeleição para a Assembleia, e retornou, em 1970, como vereador, com 5.653 votos, o segundo, atrás do radialista José Guilherme, que teve 6.975 votos. Gonçalo morreu sob esse último mandato.

Gonçalo Duarte é mais lembrado hoje por suas frases e tiradas, bem ao gosto do povão, daí o título de “filósofo popular”. Por exemplo, na campanha política de 1966 a deputado, falou no horário gratuito do TRE, segundo narra o jornalista Odacyl Cattete no livro “Barata, Passarinho e Outros Bichos”. Reclamou que dinheiro de político não rendia. Tudo que ganhava aplicava em aterro no Jurunas. Continuava pobre e morando numa barraca de palha (e era verdade mesmo). Concluindo o rosário de lamentações, o político não se conteve numa ênfase, quando afirmou: “Até hoje, continuo dormindo numa cama de pau duro”.

Aspecto da Mesa que presidiu a Sessão Magna da Câmara Municipal de Belém, em comemoração aos 150 anos da Adesão do Pará à Independência, em sessão realizada no dia 15 de agosto de 1973. Entre outras autoridades, participaram da solenidade o governador Fernando Guilhom, o príncipe D. Pedro Gastão de Orleães e Bragança, almirante Roberto Andersen, o presidente do Tribunal de Justiça do Estado, desembargador Agnano Monteiro Lopes. Em nome da CMB, como registra a foto, discursou o vereador Augusto Meira Filho, então presidente desta Casa

  • Belém e seus visitantes ilustres

Belém reúne uma coleção significativa de descrições de sua geografia urbana, depoimentos que a retratam ao longo de sua história. Na antologia “Pará, Capital: Belém” (que bem merecia uma reedição para comemorar os 400 anos da capital paraense), o escritor Haroldo Maranhão recolheu um bom número desses testemunhos. Diferentes fontes escritas nos trazem informações geográficas, antropológicas, etnográficas e históricas da cidade.

É claro, muita coisa ficou de fora da antologia. Por exemplo, o curto parágrafo sobre Belém contido no curioso “Através do Brasil”, espécie de bê-á-bá sobre o país, escrito pelo poeta Olavo Bilac e pelo historiador Manoel Bonfim. Destinado a estudantes, o livro, publicado em 1910, conta a história de dois meninos que, em busca da família, atravessam o Brasil.

A menção a Belém é breve, lapidar. “Em Belém, houve um grande movimento. Muitos viajantes desceram, muitos outros embarcaram. A cidade encantou Juvêncio pelo seu aspecto e pela sua agitação. Belos edifícios, ruas largas, bem calçadas e arborizadas, muita gente nas praças públicas e na grande avenida da República.”

Bem mais extenso e rico é o registro que J. A. Leite Moraes deixou. Paulista, foi nomeado presidente de Goiás em 1881, para onde seguiu, no começo, de trem; depois, a cavalo. Quando deixou o governo, preferiu voltar por um caminho mais longo e complicado, descendo o Araguaia e o Tocantins até Belém, onde chegou em 1882, num bote a remo. Daqui ao Rio de Janeiro foi de navio e, finalmente, de trem, de carro e a cavalo até São Paulo. Publicou o relato dessas viagens naquele mesmo ano, numa edição privada, que só há pouco foi colocada ao alcance do público, sob o título “Apontamentos de Viagem” (Companhia das Letras).

Como já se disse, Leite Moraes chegou a Belém de bote, de onde avistou a cidade às duas horas da madrugada. “Aos nossos olhos desenrola-se um painel esplêndido e fantástico; ao longe vemos suspenso pelo firmamento um candelabro de centenares de luzes trêmulas, à semelhança de estrelas agrupadas em um ponto do espaço! É a cidade de Belém que nos aparece naquelas luzes”.

Já desembarcado, percorrendo a cidade, registra: “Belém é uma cidade essencialmente comercial; a importância do seu comércio está afirmada pelo número considerável de navios mercantes, ancorados na sua baía, pela renda de sua alfândega, pelo movimento de seu mercado e pelo valor de suas transações diárias”. Em Belém, prossegue, “tudo é grande e tudo indica o desenvolvimento progressivo daquele povo; as suas ruas, os seus edifícios, particulares e públicos; o seu mercado, o seu matadouro, a sua imprensa”.

Passeando pelas ruas, nota-as “magnificamente arborizadas; esta de mangueiras, aquela de palmeiras imperiais e orlada de prédios construídos com arte e gosto, luxo e elegância”. E mais adiante: “Os seus edifícios públicos, palácios, arsenais, igrejas, alfândegas são dos melhores que conhecemos no Brasil”. Se muita coisa mudou de lá para cá, a quentura ainda é a mesma: “O calor é excessivo; não há como dormir senão na rede e com mosquiteiro”. Quanto ao Teatro da Paz, “é o atestado eloquente da força e riqueza dos paraenses; é o melhor teatro do Norte, sendo apenas inferior ao de Pernambuco na sua decoração interna”.

Segundo o autor, “o mercado rivaliza com o da Corte”. Só critica mesmo o preço exagerado da carne, fruto de “um monopólio odioso e fatal à população”. Há outras observações valiosas, mas breco por aqui o texto, que já vai longe. Mas que vale a pena botar esse retrato de Belém na parede, ah, isso vale. Ainda que venha a doer.

  • James Bond em Belém!

Para celebrar os 400 anos que se aproximam, confira esta brevíssima antologia de Belém, retirada, por sua vez, da antologia “Pará, Capital: Belém: Memória & Pessoas & Coisas & Loisas da Cidade”, organizada pelo nosso maior escritor, Haroldo Maranhão (de cujos livros bem poderíamos também extrair uma riquíssima seleção de textos sobre a cidade).

***

A 23 de outubro de 1868, foi concedido a James B. Bond o privilégio exclusivo por 30 anos, para explorar o serviço de transporte coletivo em Belém.

Foi como teve origem o BONDE, veículo que tomou o nome do concessionário desse melhoramento público, que se propunha a conduzir passageiros e materiais “para os diferentes pontos da cidade, de modo rápido e econômico”.

James B. Bond era americano e de espírito empreendedor. Por largo tempo exerceu o cargo de cônsul dos Estados Unidos da América, no Pará.

(…) A primeira [linha de bonde] tinha começo no Largo da Sé e ia até o Largo de Nazaré, além da ermida. Os carros desciam pela Calçada do Colégio, Rua da Cadeia, hoje João Alfredo, frente do Teatro Providência, Rua de Santo Antônio, dobrando na Travessa da Misericórdia, atual Praça Barão de Guajará, subiam pela Rua de São Vicente, agora Paes de Carvalho, Travessa dos Mirandas, que é a moderna Avenida 15 de Agosto, Largo D. Pedro II, atualmente Praça da República, de onde tomavam a direção da Estrada de Nazaré, até o fim da linha.

(Ernesto Cruz)

  • Duas Beléns

(…) a mais importante alteração urbanística operada no traçado da cidade foi a decorrente do aterramento do alagadiço do Piri, no início do século XIX. Antes desse aterramento havia praticamente duas Beléns – a Cidade e a Campina, como então se dizia – com aspectos e traçados diferentes. Com o aterramento desse alagadiço a cidade se unificou, e o símbolo e o traço-de-união dessa unificação foi a atual Avenida Almirante Tamandaré.

(Eidorfe Moreira)

  • Vozes da rua

(…) – “Ouro quebrado pra vender? Eu compra… Ouro quebrado, meu fregueza…”
(…) – “Mingau de miiiiiiilho!”
(…) – “Cocadinha! Pandeló! Beijo de moça!”
(…) – “Olha a cabeça de nêgo! Olha o batatão! Olha o leite de Amapá pra doença de peito!… Olha o estoraque, o apií, casca de losna pra mulhé…”
(…) “Fran gôrd! Fran gôrd!”
(…) – “Ov fresco! Ov fresco!”
(De Campos Ribeiro)

Cruzamento da Presidente Vargas (então com trânsito nos dois sentidos) com Riachuelo, no final dos anos 1950

  • Um Passeio pelo centro da Belém Antiga

Pour Monsieurs et Madames

(…) Passaram pelo belo edifício de mármore português “Paris N’América”, majestoso, repleto de “voiles” suíços, nas mais belas e finas padronagens. O tafetá, o organdy, a casemira, o linho, entre os quais o famoso HJ, os botões de madrepérola, os enfeites, as alamares, as fitas, gaze, crepes – tudo do exterior – havia ali em profusão. Em frente, o “Bom Marché”, imenso casarão antigo, importante loja de artigos para homens e para damas, no mesmo diapasão, vendendo camisas de fabricação portuguesa, da famosa Fábrica Confiança, do Porto, com conceituada seção de alfaiataria rival do “O Sport Londrino”, na confecção de ternos no figurino inglês. Não havia um só figurino em língua portuguesa, era tudo “smart”, “chic”, “dernier cri”, “royal”, “supreme”, ninguém anunciava “O Alfaiate perfeito”, era mais ou menos “The Magic Taylor” – e assim marchava o tempo…

Passaram pela farmácia Cesar Santos, lembrando o Dr. Gesteira, que não pegava em moedas para não se contaminar. A farmácia devia ser a primeira tentativa, talvez, de nacionalização do comércio paraense. A Casa Camarinha, víveres e vinhos em profusão, tudo do exterior, firma também de sócios portugueses, assim como a “Carvalhaes”, a “Vidigal” e tantas outras. O bonde, sem pressa, entrou na 28 de Setembro, descia, sonolento, batendo campainha, caindo a lança, parando, andando. Ultrapassou o Reduto, Carlindo viu a firma de ferragens, o Ás de Paus, a Minerva, a Democrata, o restaurante Ruy Barbosa. Nenhum pertencia a qualquer elemento nacional.
(Cândido Marinho Rocha)

  • Uma preciosidade

O Teatro da Paz é bom. A Basílica de Nazaré é admirável no seu luxo, embora não seja nada brasileira. Em todo caso, antes ela, que a Catedral gótica pavorosa que estão construindo em São Paulo. E há um lugar sublime, que é preciso preservar de qualquer modificação: o Largo da Sé. Só mesmo a Praça de São Francisco, em São João del Rei é tão bela como o Largo da Sé, daqui. Nem na Bahia se encontra um conjunto tão harmonioso, tão equilibrado e sereno. É um preciosidade.
(Mário de Andrade)

  • Decisões entre Remo, Paissandu e Tuna nos anos 1930

1936
Remo: Orlando; Jaime e Coelho; Arlindo, Samico e Trindade; Vavá, Evandro, Salvio, Capi e Vevé.
Paissandu: Anastácio: Feitiço e Bentes; Pena, Batista e Ananias; Ita, Doca, Quarenta, Heitor e Erberto.
Os azulinos venceram por 2 x 1.

1938
Remo: Orlando; Edil e Evandro; Trindade, Pelado e 77; Moacir, Bendelack; Viveiros, Capi e Vevé.
Tuna: Licínio; Setenta e Cinco; Aldomário, Pio e Marcelo; Lulu, Conega, Popó, Poeira e Matos.
Vitória do Leão Azul pelo escore de 4 x 2

1939
Remo: Orlando; Coelho e Edilberto; Samico, Pelado e 77; Vavá, Bendelack, Jango, Carvalhinho e Moacyr.
Paissandu: Manduca; Athenagoras e Pena; Mariano, batista e Pery; Arleto, Imar, Heitor, Erberto e Poeira.
Remo: 7 x 2.
(Ernesto Cruz)

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